segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Campanhas presidenciais: os sinais da primeira semana, por Aldo Fornazieri


O peso e a importância específicos dos programas eleitorais na TV sobre a definição de voto do eleitor são ainda uma incógnita. Sabe-se que influenciam. Mas, aparentemente, essa influência é limitada. Custam caro: nas eleições de 2014 o governo arca com R$ 840 milhões em benefícios fiscais para bancar as campanhas gratuitas para os candidatos e partidos. Quem paga, no final das contas, é o contribuinte. O Tribunal Superior Eleitoral comete uma falha grave ao não fazer pesquisas sistemáticas sobre a importância dos programas de TV junto aos eleitores. Uma das poucas pesquisas que existem sobre o tema foi feita por um centro de estudos da UFMG . A pesquisa incide sobre a campanha presidencial de 2010 e mostra que 43,2% dos eleitores não assistem os programas eleitorais na TV , contra 54,4% que assistem. Desses últimos, 65,9% assistiram ao menos uma vez por semana. Ou seja, de modo geral, os programas contam com baixa audiência.
Os programas de TV são o item mais caro de uma campanha eleitoral. As campanhas no Brasil são absurdamente caras, o que faz aumentar a influência do poder econômico, que se torna patrocinador dos candidatos em troca de benéficos futuros. A previsão de gatos de Dilma na campanha é de R$ 298 milhões; a de Aécio de 290 milhões e a de Campos – agora de Marina – de R$ 150 milhões. A primeira prestação de contas dos candidatos feita ao TSE apresenta um retrato do perfil dos financiadores: 91% de todo o dinheiro arrecadado foi doado por empresas; apenas 3% foram de pessoas físicas; três empresas – a JBS Friboi, a AmBev e a construtora OAS doaram 60% dos recursos arrecadados pelas campanhas presidenciais. Quer dizer, o peso do poder econômico salta aos olhos, assim como a expropriação do protagonismo dos cidadãos nos processos eleitorais.
O que se pode dizer da propaganda eleitoral na TV é que sua principal função consiste em universalizar e tornar igual o conhecimento dos candidatos. Sem dúvida, ela é um dos elementos que contribui para definir a decisão de voto do eleitor. Mas não é nem o único e, provavelmente, nem o mais importante. Quem acompanha as eleições sistematicamente percebe que as conjunturas eleitorais têm uma determinação maior na definição das eleições do que os programas de TV, da ação dos apoiadores ou da amplitude da coalizão. Seguindo critérios maquiavelianos de análise de conjuntura, podemos defini-las, grosso modo, de dois tipos: ou elas são de continuidade (conservação) ou de mudança. Para melhor compreender os conceitos, basta apresentar dois exemplos. Em 2010, a conjuntura era de continuidade, pois o eleitor queria que o governo Lula continuasse na sua sucessão. Esta conjuntura favoreceu a vitória de Dilma. Na campanha presidencial de 2002, a conjuntura era de mudança, já que o último governo de FHC era mal avaliado pela maioria da população, que almejava mudanças, fator que favoreceu Lula.

O Extravio de Aécio
Os programas de TV permitem perceber qual a leitura que cada campanha faz da conjuntura e como se pretende abordá-la para capturar a atenção e o voto do eleitor. Como os programas são acompanhados por pesquisas Quali, eles podem ser mudados ou retificados de acordo com as reações dos eleitores. As retificações e ajustes, no entanto, têm alcances e êxitos parciais já que existem outros fatores que incidem sobre a definição de voto do eleitor para além da propaganda televisiva.
A primeira semana de propaganda eleitoral na TV revela a leitura extraviada que a campanha de Aécio faz da conjuntura. Aparentemente, essa leitura adota como ponto de partida a constatação das pesquisas de que mais de 70% dos brasileiros querem mudanças na política. A campanha de Aécio lê esse anseio de mudança apenas como uma mudança em relação ao governo Dilma e ao PT. Na verdade, esse anseio de mudança é bem mais amplo do que a simples troca de governo. É uma mudança que se refere ao modo geral da prática política que vem sendo desenvolvida no país. É uma mudança que se conecta com a crise de representatividade dos políticos, dos partidos e das instituições.
Ao não compreender na natureza da mudança almejada pela sociedade, Aécio descambou para um conservadorismo puro e simples. Quer credenciar-se como o candidato da mudança ao apresentar-se como o anti-PT e o anti-Dilma. Desenvolve uma campanha negativista sem credenciar-se como candidato da esperança. Ademais, caiu numa posição defensiva ao insistir na tese de que não acabará com os programas sociais, a exemplo do Bolsa Família. Procura capturar os votos das chamadas classes C e D, algo difícil, pois são mais fiéis ao PT e a Dilma. Desta forma, abandona o campo de batalha onde teria mais chances de arregimentar votos: as classes médias médias e altas. Com isto, este terreno fica livre para ser capturado por Marina Silva, o que poderá fazer Aécio resvalar cada vez mais para um terceiro lugar.
A campanha de Dilma, por sua vez, tem uma leitura mais correta da conjuntura e seus programas de TV procuram focar os dois principais problemas da caminhada para a reeleição: a recuperação da avaliação do governo e a reconfiguração da imagem de Dilma. Apesar dos erros na condução da política econômica e no início tardio de investimentos na infra-estrutura, o governo tem muitas realizações a mostrar. Conta a favor de Dilma o fato de que o desemprego permanece baixo e a renda ainda acusa ganhos. A campanha, no entanto, terá que se esforçar para mostrar uma Dilma diferente do que foi durante o governo: arrogante, sem diálogo com os partidos e a sociedade civil, avessa ao exercício da política e praticamente do mandonismo burocrático. Não bastará refazer sua imagem, apresentando-se como uma pessoa normal e uma mulher sensível: se reeleita, terá que adotar outra postura como presidente para não derrapar para o isolamento palaciano. Dilma terá também que sinalizar uma mudança da equipe econômica.
As Indefinições de Marina
Em que pese a competitividade demonstrada por Marina em sua estréia como cabeça de chapa, em conseqüência do infortúnio de Campos, ela terá que enfrentar muitos desafios para poder passar mais credibilidade e ganhar confiança de setores mais amplos da sociedade. A “nova política”, por enquanto, é uma fantasia carente de conteúdo. Marina será convocada a criar uma face concreta, visível, a essa ideia. Se continuar com o discurso anti-conchavo, terá que dizer como dará sustentação política ao seu governo. Dizer que poderá contar com pessoas corretas e honestas que existem em todos os partidos ou é dizer que usará o governo para cooptar essas pessoas ou é aventureiro, pois o governo terá que se compor partidariamente. Terá, assim, se eleita, que negociar com os partidos, desmentindo suas promessas de campanha, Se governar sozinha, apenas com os seus, poderá cair no mesmo isolamento político em que caiu Collor de Mello, o que também poderá ser uma aventura. Como Marina apresenta chances de vitória, terá que se despir do discurso genérico e do dever ser. Terá que apresentar os meios pelos quais pretende realizar os nobres fins. É nos meios onde se abriga o demônio da política. Há que se esperar para ver.
Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.

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