domingo, 12 de outubro de 2014

Crime e corrupção marcaram construção do mito de Nossa Senhora Aparecida

Com a conivência do Império, tesoureiros enriqueceram roubando presentes levados à estatueta da padroeira do Brasil

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A única figura imperial que não virou as costas para Aparecida foi a princesa Isabel. Católica devota, ela visitou a santa em 1868 e a presenteou com uma coroa com 300 gramas de ouro e 40 diamantes. Isabel nunca recebeu o mesmo presente. Em 1889, a Proclamação da República levou-a para o exílio em Paris.

Na mesma época, a santa presenciou um milagre — sua basílica finalmente ficou pronta. A façanha só foi possível com a intervenção da figura quixotesca de Dom Joaquim do Monte Carmelo. O religioso denunciou os tesoureiros corruptos na imprensa, pediu empréstimos de negociantes e freiras, vendeu sua chácara para pagar tijolos e mármore e discutiu com bispos e juízes até concluir os trabalhos.

A REPÚBLICA ‘SALVADORA’ 

Mas a melhor notícia para Aparecida foi a derrubada do Império. Ao contrário da família real, a República não demonstrou interesse em administrar os santuários ou entregá-los a grupos políticos. O primeiro presidente, o marechal Deodoro da Fonseca, publicou um decreto separando a Igreja do Estado.


— A República foi considerada a salvação da basílica — avalia Alvarez. — O regime queria se mostrar afinado com os anseios do povo. Por isso, Aparecida foi coroada padroeira do Brasil em 1904.


Desde então, diversos presidentes ergueram a escultura, a ditadura militar levou-a para passear em uma peregrinação nacional — entre 1966 e 1968, ela percorreu 45 mil quilômetros em 508 dias de viagem — e, em 1980, a santa ganhou uma basílica nova. Três papas beijaram seus pés, um gesto que nasceu no século XVIII. Depois de João Paulo II e Bento XVI, veio Francisco, em junho do ano passado. Inicialmente, o pontífice deveria visitar apenas o Rio. No entanto, preferiu esticar a viagem em um dia para ir ao interior paulista e conhecer a santa brasileira.

Da exploração de sua imagem à aclamação popular, da negligência imperial à cessão de uma coroa de diamantes, Aparecida trilhou um caminho tão torto como seu molde de barro. Prestes a completar seu tricentenário, a santa livrou-se de tesoureiros corruptos e viu padres deixarem de ser “votos vencidos” em documentos sobre seu patrimônio. A cobiçada santa feia e sem cabeça viveu o que seus fiéis brasileiros ainda vivem.

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